Espontaneidade e criatividade: o brincar como ponte entre o real e a ilusão

Na obra “O Brincar e Realidade” (1975), o psicanalista D. W. Winnicott (1896-1971) defende o brincar do bebê, da criança e do adulto, como sinônimo de viver criativamente. O “espaço potencial” é a ponte entre o mundo interno e externo, que pode se constituir como uma experiência de fortalecimento e descoberta do self. É essa criatividade primária que possibilita a constituição subjetiva, já que leva o homem a criar o mundo em que se vive: “É no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral: e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o seu eu (self)”. (1975, p. 80).

Winnicott demonstra que o sentido do real é um processo de desenvolvimento complexo, originário nas primeiras experiências do bebê com a sua mãe, que formarão os padrões básicos de relações com o mundo. Por isso, só é possível compreender a etiologia do self se olharmos também para as primeiras relações objetais do bebê. Há um momento inicial de indiscriminação, já que o bebê lactante está não integrado, estabelecendo uma “dependência absoluta” com seu ambiente.

Na perspectiva de Winnicott, a mãe é capaz de assumir dois papéis na relação com o bebê: a mãe suficientemente boa e a mãe não suficientemente boa. É justamente a mãe suficientemente boa, ao repetidamente complementar a onipotência do lactante, que permite o verdadeiro self ganhar força. No momento em que é dada força ao ego do bebê, o gesto espontâneo se concretiza, validando a alucinação sensorial do lactante. O valor da ilusão está na própria capacidade do bebê criar um seio na ausência real do seio materno, possibilitando à criança lidar com a ausência do objeto de sua necessidade imediata.

Ainda na obra “O Brincar e a Realidade” (1975), o autor aponta a importância da adaptação da mãe suficientemente boa às necessidades do bebê para criar a ilusão de que o seio da mãe está sobre o controle onipotente da criança. Apenas o self verdadeiro é criativo, espontâneo e leva o sujeito a sentir-se real.

Em contrapartida, a mãe não suficientemente boa não alimenta a onipotência do bebê, acabando por substituir os gestos espontâneos da criança pelos seus próprios, o que pode levar o bebê à submissão, por apenas reagir às exigências do meio. Um falso self oculta o self verdadeiro, impedindo que as experiências espontâneas enriqueçam a vida do sujeito. Relacionamentos falsos e superficiais, bem como a rigidez e ausência de espontaneidade, são algumas das características de uma personalidade falso self. Ainda que se sustente uma aparência de realidade, por trás se esconde um splitting na personalidade, uma cisão que resulta não somente no sentimento de futilidade, mas também numa sensação de irrealidade.

Bibliografia Consultada

FREUD, Sigmund (1856-1939). Obras Completas; Tradução de Paulo Cesar de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

GUELLER, A & SOUZA, ALS (org). Psicanálise com crianças: perspectivas teórico-clínicas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2008.

WINNICOTT, Donald. O Ambiente e os Processos de Maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed, 2007.

WINNICOTT, Donald. O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1975.

WINNICOTT, Donald. Natureza Humana. Rio de Janeiro: Imago, Ed.; 1990.

WINNICOTT, Donald. Tudo começa em casa. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011.

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