A arte, o brincar e os simbolismos inconscientes

Atualizado: 21 de Out de 2020

O modo de transformar a realidade, que o artista encontra por meio de suas obras, é muito próximo ao brincar das crianças, já que através da brincadeira se cria uma realidade muito particular. A psicanalista Magaly Callia e Adela realizam contribuições importantes para tecer reflexões sobre o brincar no presente artigo. A autora Callia aponta o brincar como essencial no processo de elaboração. É o espaço potencial do brincar que permite a experiência de SER dentro de eixos espacial e temporal, possibilitando a criança imaginar o futuro.

O brincar, portanto, é imprescindível para a constituição do sentimento de permanência, de ser sujeito em um determinado tempo e espaço, que são os eixos primordiais para o sentimento de existir. Conforme a psicanalista Callia aponta no seu texto “No caminho da transicionalidade: brincando criamos o mundo” (2008), o brincar da criança é capaz de aglutinar experiências de várias ordens, como sensorial, cognitiva, emocional e social. Desse modo, é por meio do brincar que a criança se insere na cultura e no simbólico, criando e recriando a realidade espontaneamente, descobrindo um recurso preciso para a criança lidar com perdas, angústias, separações e ansiedades. Como diz Callia, o brincar diz respeito à possibilidade que o indivíduo tem, desde que nasce, de se relacionar, de se comunicar, de ter uma ação no mundo.

A psicanalista Adela no texto “O jogo do jogo” (2008), aponta que os objetos do consultório funcionam como suportes imaginários dos significantes. Essa perspectiva acredita no uso de brinquedos pela criança como o seu modo de se fazer representar, combinar significantes, criar metáforas e produzir, assim, um novo sentido. Para a autora, no campo das neuroses, o analista intervém, justamente, na direção dos deslocamentos dos significantes.

Não por acaso que o psicanalista francês Jacques Lacan (1901-1981) diz que a interpretação do analista deve progredir no sentindo de estruturação simbólica do sujeito. A importância de o analista “saber” brincar e entrar no jogo da criança é, justamente, se colocar como receptor das mensagens endereçadas ao grande Outro. A ideias de Lacan vão ao encontro de que o surgimento das metáforas é importante para a constituição da subjetividade, já que implica o recalcamento em operação, mecanismo constitutivo do inconsciente.

O brincar traz prazer para as crianças, e renunciar a essa atividade pode ser mais difícil para os adultos, principalmente para os sujeitos que não formaram um substituto desse prazer na realidade. Sigmund Freud (1856-1939) demonstra que as forças motivadoras das fantasias são os desejos insatisfeitos, que se transformam e alteram-se de acordo com situações que o sujeito atravessa em sua vida. As fantasias e os devaneios, portanto, se constroem em uma situação presente, de acordo com um modelo de realização desse desejo no passado infantil, criando uma nova perspectiva para o futuro. Como ocorre nos sonhos, o brincar é a via régia para as fantasias inconsciente acendendo potências do sujeito vir-a-ser humano.

Bibliografia Consultada

FREUD, Sigmund (1856-1939). Obras Completas; Tradução de Paulo Cesar de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

GUELLER, A & SOUZA, ALS (org). Psicanálise com crianças: perspectivas teórico-clínicas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2008.

LACAN, Jacques. O Seminário (Livro.1). Rio de Janeiro: Zahar editora, 1986.

WINNICOTT, Donald. O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1975.

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