Rosa d’água

“Rosa d’água” traz à tona a temática emblemática da “Pulsão de morte” da Psicanálise. Desligamento, repetição, mudez, tendência à inércia e agressividade são características que costuram toda a narrativa. Quem se aventura ao des-ligamento?

Era uma voz assim suave quando devia ser intensa; penetrante quando precisava deslizar. Sentia-se incompreendida na imensidão das incertezas que atormentavam todas as suas noites. A rouquidão era quase inevitável: queria sossego, pedia remédio para seu desespero. Sua voz não saía. Nessas horas, era como se ficasse com o som preguiçoso, uma garganta fechada que só aprisionava suas vontades de ser. Mas também era bem verdade que não se fazia ouvir. Sua casa era feita de paredes surdas, portas trancadas e janelas pequenas. Queria mais, mas a mesma voracidade que a inquietava por dentro também a calava por fora. E eram tantos os seus sonhos: de algodão doce, roda-gigante e palhaço de circo. Quando pensava em sonhos, o teto lhe esnobava, caia da cama e batia forte com a cabeça no chão.

Certa manhã nublada, a energia contida já não saía do peito apertado. Calada e sem voz, foi ficando também sem alma. E sem alma ficou pálida, gélida, qualquer coisa assim sem cor. Por mais que se buscasse nos espelhos, não encontrava aquela imagem única e familiar para lhe acalmar. A menina insistia em seus equívocos, dizendo para si mesma não passava, dessa vez, de um tombo mais forte.

Por quanto tempo se perdeu no sonho? Viu a caixinha jogada na cama e o mal-estar não esperou para retornar. Tomara mais compridos do que da última vez, essa era uma certeza para se agarrar veemente: insistência inútil em acalmar aquilo que não se aquietava nela. Suspirava e ouvia o ar saindo do nariz, mas a voz ainda não transpassava a garganta. Era estranho que ninguém notava sua anestesia, as pessoas da pequena cidade simplesmente foram se acostumando aquela mudice sem explicação, sem passado nem futuro.

O padeiro foi o primeiro a comentar alguma coisa sobre a menina, compartilhando com o farmacêutico: “ela é mal-educada mesmo! Tem tudo e fica miguelando o bom dia para gente simples”. O farmacêutico, que sempre concordava com o padeiro, passou a comentar com o restante da cidade como a garota deixara de ser boneca para se tornar menina-mimada-ingrata.

Passaram-se alguns dias e a atmosfera de instabilidade não desgrudava das coisas do seu quarto. Os dias começaram a se transformar em semanas e aí a menina já nem se lembrava mais qual era o timbre que tornava a sua voz reconhecível e única. Se antes era difícil ficar apenas com seu próprio pensar, agora nem queria mais falar. E para que ouvir música se o som só a atravessava, a impedindo de cantar?

Entregue no seu quarto, os espelhos continuavam sinceros. Foi então que o seu olhar deslizou até o abajour que iluminava indispostamente o ambiente até paralisar na bela rosa branca que acabara de desabrochar. Sorriu com o canto da boca, sentiu-se aliviada por compartilhar um soluço de vivacidade. Chegou mais perto da rosa, estendeu suas mãos delicadas e acariciou as pétalas como se a vida estivesse dentre seus dedos.

Como manter algo tão perfeito eterno? Não era mais tão jovem para acreditar que não se morre e que tudo pode. Assim, acendeu uma vela enquanto seu rosto ruborescia, quase podia dizer que escutava alguém anunciando a sua hora e a sua vez chegara. Abriu as janelas, o vento entrava mas só ameaçava a chama da vela. Aproximou lentamente a vela dos dedos, o fogo da rosa e a chama da pétala. Foi então que vida encontrou a morte serenamente, naquele instante belo e único. Primeiro foi a pétala menor que incandesceu, depois o fogo foi consumindo cada sinal de vitalidade que ainda restava na rosa, nada escapou. E a garota apenas assistia tudo aquilo, as chamas ardiam independente de sua vontade, não deixando-se intimidar nem mesmo pelos espinhos. Sem piscar, a menina contemplou os momentos finais, até tudo tornar-se cinzas no encontro do fogo com a água.

A garota mordeu os lábios, engoliu o ar seco e uma lágrima escorreu dos seus olhos. O impulso foi beber o copo de cinzas para imortalizar a vida da rosa nela. Engolia com voracidade as rosas em cinzas, como se sua existência dependesse da sua redenção.

Naquela madrugada, ninguém dormiu na pequena cidade entre os dois rios. Um grito avassalador interrompeu o sono dos moradores, ensurdecendo até os ouvidos mais cansados. Depois disseram que ouviram um som de violão tocando compulsivamente, como se o som invadisse a estabilidade confortável e familiar. Alguns ainda mencionaram uma dançarina misteriosa que caminhava na praia entre as pedras dos rios, rindo de si mesma e soltando gargalhadas enquanto desequilibrava nas pontas dos pés.

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