Cinema e ilusão

Os conteúdos das obras de arte têm uma conexão intensa com os simbolismos Inconscientes. Em 1909 em uma palestra na Sociedade Psicanalítica de Viena, Sigmund Freud (1856-1939) defende que a forma da obra de arte é um precipitado de um conteúdo mais antigo. Assim, indica que a arte possui raízes nas profundezas do Inconsciente, revelando um grau de recalque rebaixado do artista, uma espécie de “fenda” ou “brecha” de acesso às fantasias desconhecidas: espaço de enlaces de metáforas, do lúdico, do estranho, dos assombros e por que não do cinema?

A área da ilusão possui um papel de suma importância na constituição e na manutenção do sentido de realidade, fundamental para a formação da subjetividade humana. O ato criativo, movimento de ruptura que se dirige ao novo, mantém esse paradoxo entre o EU e o Mundo, lugar privilegiado para a criação de novas formas de existir. Donald Winnicott (1896-1971) foi muito perspicaz na descoberta do “espaço potencial”, lugar do dentro e do fora, da criação e recriação, ilusão e fantasias tão necessárias para não sermos invadidos excessivamente pelo concreto.

Aqui, o papel da arte não poderia ser outro, mas tecer articulações envolvendo um enriquecimento interno decorrente do encontro inevitável com o desconhecido e, claro, com o familiar. A busca é por um encontro com signos contextualizados, que extrapolam sentidos e criam narrativas conectadas. Se cinema é ilusão e na experiência estética também se torna arte, a brecha para o novo se amplia, assim como outras formas de representações possíveis.

Assim, a proposta desse ensaio sobre poesia e cinema se configura como um afastamento de si na aproximação com as palavras, os nomes, ditos e não-ditos. E nesse mistério se revela uma sensibilidade necessária no campo de interação sujeito-cultura-arte para que os espaços se abram internamente, expandindo a percepção dos processos simbólicos, justamente, no esgarçamento do inconsciente que escapa.


Bibliografia Consultada

FREUD, Sigmund (1856-1939). Obras Completas; Tradução de Paulo Cesar de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

GUELLER, A & SOUZA, ALS (org). Psicanálise com crianças: perspectivas teórico-clínicas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2008

UCHITEL, Myriam. Neurose traumática: uma revisão crítica do conceito de trauma. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001.

WINNICOTT, Donald. O Ambiente e os Processos de Maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed, 2007.

WINNICOTT, Donald. O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1975.

WINNICOTT, Donald. Natureza Humana. Rio de Janeiro: Imago, Ed.; 1990.

WINNICOTT, Donald. Tudo começa em casa. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011

1 visualização0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Fernanda Fazzio
fazziofernanda@gmail.com

+55 11 4191 1258

Atendimento presencial em
São Paulo e Alphaville

 


 

Envie uma mensagem

Nome *

Email *

Mensagem

©2019 Fernanda Fazzio - São Paulo, Brasil. Todos os direitos reservados. Consulte antes para reprodução total ou parcial do conteúdo do site | Termos de uso | Política de Privacidade