A vida começa no depois

Atualizado: 21 de Out de 2020

Imagem; Fotografia do Espetáculo "Entre Esperas" por Alexandre Krug

Em “A vida começa no depois” as reflexões sobre o tempo são os ingredientes principais. Discute-se o “tempo de produção”, acelerado e veloz, em contraposição com o “tempo de existência”, com sentido e escolhas autênticas. Em um mundo em que se corre atrás de um tempo sempre insuficiente, como ter tempo para cultivar a sensibilidade para se constituir como sujeito? As relações entre Psicanálise e Cultura estão no “mal-estar” provocado pelo (des)aparecimento do sujeito enquanto ser pensante e reflexivo. O conto inspirou cenas do espetáculo “Entre esperas” (2016) da Cia Penélope de Teatro.

Caro navegante,

A vida começa no depois. Foi sem esperar, na ressaca do dia por vir, que viver foi tornando-se o futuro dentro de um sapato apertado.

Acordava às 5horas com os dentes apertando forte para tomar café forte com leite frio e logo eu me preparava para sair de casa com uma roupa não muito diferente de ontem e provavelmente parecida com a de amanhã porque se varia muito pouco entre os dias das semana e é bom mesmo não perder tempo escolhendo o que vestir e era então que dirigia até o trabalho e abria o meu e-mail na minha mesa de um metro com urgências que levariam a madrugada para tomar o lugar dos próximos problemas e planilhas detalhadas dos trabalhos seguintes que nunca terminavam porque os projetos só cresciam e o tempo era cada vez menor mas não tinha problema porque as férias de duas semanas inteiras estavam próximas e o restante dos dias de folga eu venderia para conseguir um hotel melhor em Ubatuba no ano seguinte.

Eu vivia entediado, nada me satisfazia e eu não conseguia me grudar em coisa alguma do mundo. Pulando de tarefa em tarefa, meus dias eram tomados por promessas de um futuro melhor: próximo e próspero. Quando criança eu pensava: “Quando eu for adolescente vou conquistar as meninas bonitas do colegial.” Eu cheguei na adolescência mais raquítico que o esqueleto humano pendurado na sala de aula de ciências. Na faculdade de economia eu pensei: “Quando começar com o meu primeiro emprego eu me mando da casa dos meus pais e vou ser livre”. Consegui a promoção, ganhando menos do que se precisa para viver decentemente, mas o suficiente para morar em uma caixa de sapato. E mal sabia eu em quantas prisões me meti desde então: trabalho regrado com hora para chegar e sem hora para sair, hora para arrumar a casa, hora para comprar comida, hora para fazer o jantar no fim de semana, hora para ir ao banco pagar as contas, hora para ir ás reuniões de condomínio decidir sobre o lixo reciclado e hora para reclamar das obras do apartamento vizinho que tiram o meu tempo de sono de todas as noites.

Quanto mais me perdia nas coisas, mais coisas dentro de mim eram esquecidas. Eu me sentia sempre vazio. Vivia preso na pressa, amarrado em um tempo só. Vírgulas eram desnecessárias e pontos finais não existiam na minha condição de servidão. Com a urgência que demora para passar, achava que o meu olhar deveria ser antecipado, como quem não tem passado e respira expectativas. Mas como espremer o vazio em um corpo de respiração curta?

Pé na loucura, cabeça desordenada e olhos bem abertos, estava eu sufocado dentro de mim. As crises de ansiedade nas madrugadas se tornaram mais e mais frequentes. Começaram com o despertar de pensamentos: será que liguei o despertador? Depois, passaram a ser mais intensos e recorrentes: eu paguei a conta de luz? Eu enviei o e-mail copiado para o meu chefe? Será que os advogados receberam o documento com firma reconhecida? Se antes eu mal sonhava, agora sentia falta dos pesadelos. Dormir era um terror e acordar era penoso. Eram os mesmos fantasmas que me assombravam acordado que voltavam á condição de sonhos ruins nas madrugadas em claro. O relógio não parava e eu só lutava contra a passagem do tempo.

O motor de tudo isso era a inveja, admito. Humana e desastrosa, arruinava tudo a minha volta. Um vazio mergulhado em excessos escapava pelas minhas extremidades. Tropeçava quando ia buscar café, meu corpo não era sentido como parte de mim e o que restava era arrancar minuciosamente a minha já rala sobrancelha. Insatisfeito constante em não ser o gerente em destaque, achava que o mundo corporativo me devia mais reconhecimento. Dedicava a minha vida a eles, mas o “outro” dentro de mim começava a incomodar.

Esse outro que me habitava tinha cheiro de infância roubada e gosto de pé-de-moleque. Minha avó costumava cozinhar pé-de-moleque, mas não me deixava roubar o doce antes do tempo de endurecer. Eu sempre preferi ele semi-pronto, com gosto de quase-fim que derrete na boca. Com o coque feito de fios cinza, ela dizia “menino tira o nariz daí”. E eu obedeci, não voltei mais a bisbilhotar o doce esfriando na janela. Fiquei sufocado pela doce voz da minha avó. Indolor, sem fragrância e sem cor, uma zona de indeterminação me acompanhava como sombra de uma viva com excessos de futuro.

Ar era um coisa que não entrava direito em mim, não me preenchia. Respirava em ritmo curto, como se eu desse pequenos socos no meus estômago para digerir o indigerível. Era da ordem do pior (e eu bem sabia).

Medido por números, minha régua era prazos e madrugadas viradas. Em busca de fôlego, escapava justamente o que não se volta, mas que retorna em pesadelos. Não sei dizer quando deixei de ser dono da minha boca e deixei que as minhas palavras colassem em discurso prontos por outros. Imerso em cotações e números, o tempo só era percebido na sua condição de aceleração. Eu me pegava visualizando uma imagem triunfante do homem sem tempo, mas sem me dar conta que era um espelho distorcido de mim mesmo. Onde deixei o limite invisível entre o impossível e a impotência?

O relógio repetia sem cessar com a pressa do coelho branco: Estou atrasado, estou atrasado, estou atrasado. Até que certo dia, depois de mais de cinco noites seguidas sem dormir, li na embalagem do iogurte de morango: “agite antes de beber”. Repeti para me escutar: agite antes de beber. Agitei e tomei. Mas algo grudou em mim. Repeti em voz alta para me convencer. Um eco doído de verdade anunciada dominou a casa. Percebi que nada sabia do prazer da bebida, daquele depois que fica. Voracidade desmedida, engolia sem apreciar a vida. O que vem depois do depois?

Acompanhado pela solidão de ser quem se é, arranquei os sapatos do escritório e saí andando pelo mundo. Lembro que senti o cheiro da cidade. Um aroma de desespero atropelado tomava conta de todos os espaços. Decidi fugir, andar sem destino e fazer um outro caminho. Avisei mamãe que iria tirar “férias” e nunca mais calcei nada que meus dedos não suportassem.

Fui me encontrar no fundo que está dentro: no sombrio, no silêncio escuro que só se vê mar adentro. Lamento pela espera prolongada. Sei que meu tempo de vida se aproxima do meu tempo de morte, a cada dia, do eterno que não se conta. Pertencia a cisão de um tempo que não era meu. E nessa justa pressa de calçar os sapatos certos, encontrei os atalhos e paguei o preço de me perder de mim. Hoje vivo no intervalo não contado, busco olhares de verdade, menos brilhantes e mais sinceros. Foi nas amizades sem imperativos que encontrei o prazer de ser quem se é.

E agora nada sei sobre as pedras na minha travessia até o outro lado da margem, sou ainda menos sabido que quando era jovem, menor, pouco ousado e audacioso pela metade. No caminho de ponta-cabeça, dos pés descalços e dos passos longos é também o caminho da solidão que acompanha. Ao lado da morte, eu simplesmente espero a minha hora e a minha vez.

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