A neurose traumática e o surgimento da psicanálise

Ainda que o conceito da histeria fosse mais antigo que o da própria medicina, as suas causas eram um profundo mistério, por vezes confundida como delírio, simulação ou burla. Com os estudos de Jean-Martin Charcot (1825-1893) a questão do mecanismo dissociativo do psiquismo começa a ser reconhecida, o que contribuirá, posteriormente, para o desenvolvimento da teoria do trauma psíquico formulada por Sigmund Freud (1856-1939).

Myrian Uchitel, no seu livro “Neurose Traumática” (2001), lembra que os movimentos iniciais da psicanálise estabeleciam estreitas relações entre a histeria e o trauma. Pisando no território em que as fantasias e os conflitos psíquicos roubam a cena, os mecanismos de defesa ocupavam o espaço fundamental da origem do sintoma neurótico, como defendeu Freud. Assim, é por meio da investigação acerca de um confronto de forças psíquicas que o pai da psicanálise desenvolve a ideia inicial de conflito psíquico.

Na obra “Traumas não elaboráveis” (2011), a psicanalista Márcia Porto Ferreira aponta o funcionamento em mão dupla do trauma: constitui e invade o percurso das formulações freudianas, transbordando as descobertas já consagradas do princípio do prazer. Isso leva, invariavelmente, ao questionamento sobre as origens das angústias e das neuroses, inclusive sobre o próprio método psicanalítico. Como Márcia Porto afirma, nos primeiros tempos do conceito de trauma, é a interiorização desse fator externo o responsável pelo sintoma. Nessas circunstâncias, Freud diz que “as histéricas sofrem de reminiscências”, inferindo acerca de uma primeira cena de sedução como força traumática. Contudo, trauma só se instalaria, de fato, diante de uma segunda cena paliativa que teria a sua condição traumatizante ao evocar a primeira cena.

Entre 1892 e 1897, a etiologia traumática das neuroses está próxima a ideia de um “evento real” ocorrido nos primeiros anos de vida de uma criança. Os estudos da histeria explicam o trauma como decorrente de um acontecimento advindo da realidade externa que atravessou o sujeito na infância, deixando marcas de afetos penosos no psiquismo, como uma espécie de “corpo estranho”. Desse modo, o trauma seria consequência da falta de meios de ocorrer ab-reação diante da experiência, impossibilitando, assim, a descarga dos afetos. Como a autora defende: “(…) A cura catártica teria como fim buscar, pela ab-reação dos afetos traumáticos através da colocação em palavras, a reminiscência patógena”. (FERREIRA, pág 30)

Aqui, nos primórdios da psicanálise, as “neuroses traumáticas” não são claramente diferenciadas da histeria. Conforme Freud avança nas suas pesquisas sobre a neurose, acaba descartando o acontecimento traumático como exclusivamente desencadeado pela exterioridade, desatrelado de subjetividade. Freud em 1905-1906 aponta que, acima das excitações vivenciadas na infância, o que se deve atentar é para a reação de recalcamento do sujeito perante essas vivências. O fator externo cede espaço ao valor interno no momento que entra em cena as fantasias transbordadas de desejos sexuais. Assim, Márcia Porto coloca que a realidade objetiva é substituída pela realidade psíquica na determinação da neurose.

Quando as descobertas do Complexo de Édipo emergem, ressaltando o papel das fantasias e da sexualidade infantil na constituição psíquica, a teoria acerca do traumático ganha peso. O motivo da enfermidade deixa de estabelecer relações estreitas somente com “acontecimento”, mas articula-se com a significação e representação realizada pelo sujeito e ao fracasso do mecanismo de defesa diante do evento. Desse modo, o efeito traumático seria consequência do acúmulo de vários traumas parciais que teceriam uma cadeira de efeito traumático na neurose.

Bibliografia Consultada

CHNAIDERMAN, Mirian. Ensaios de Psicanálise e Semiótica. São Paulo: Editora Escuta, 1989.

FREUD, Sigmund (1856-1939). Obras Psicológicas de Sigmund Freud: edição standard brasileira/ Sigmund Freud; com comentários e notas de James Strachey; em colaboração com Anna Freud; assistidos por Alix Strachey e Alan Tyson; traduzido do alemão e do inglês sob a direção geral de Salomão- Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund (1856-1939). Obras Completas; Tradução de Paulo Cesar de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

FERREIRA, Márcia Porto. Trauma não elaboráveis: clínica psicanalítica com crianças. São Paulo: Zagononni, 2011.

GUELLER, A & SOUZA, ALS (org). Psicanálise com crianças: perspectivas teórico-clínicas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2008

UCHITEL, Myriam. Neurose traumática: uma revisão crítica do conceito de trauma. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001.

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