A menina dos pássaros


O conto “A menina dos pássaros” foi inspirado no conceito psicanalítico de Fantasia. Desde o percurso inicial da Psicanálise, percebe-se que a “realidade psíquica” não poderia ser ignorada na escuta clínica. Assim, cada um tem um modo particular de perceber a realidade e criar teias de sentidos e significações, revelando o papel fundamental que a Fantasia assume na vida mental dos sujeitos.

O conto está presente na dramaturgia da peça “Entre esperas” (2016) da Penélope Cia de Teatro. Além disso, o poema “Passarim me contou”, do poeta João Jonas, foi escrito originalmente para esse conto.



Passarim me contou

A moça carregava pássaros no cabelo. Ninguém desconfiava, a cantoria parecia de outras paragens Os cabelos não esvoaçavam, guardavam música e segredos. A moça e os cabelos floreavam pela vida…. Soube assim mesmo sem ver…


(João Jonas)


O vento um dia coloriu-se. Tons grudaram-se em formas de mechas no cabelo de uma menina sentada embaixo da árvore de troncos retorcidos. Ela gostava daquela sombra úmida com chão coberto de folhas secas, lugar em que as palavras demoram para voltar e sempre chegam atrasadas. Ela não contava tempo por ponteiros, acreditava que os tempos pudessem ser cheios, minguantes ou tempos-novos, como as fases da Lua. Quando as esperas eram completas, vivia em tempos-cheios. Chamava de minguantes as suas esperas penduradas, que ainda teciam-se incertas, como as meias-esperas. Mas as esperas mais ansiadas eram as novas, porque se renovam em outras esperas.

E entre esperas, em um dos galhos mais altos, com uma disfarçada quietude de existir, um passarinho transpôs a casca que o aprisionava. Tempo, tempo, tempo. Na ânsia do primeiro impulso, mostrou seu bico e seu desgarre. Tempo, tempo, tempo. Afincou-se no mundo. Melado e enlaçado, só escutava uma melodia de contradições. Com asa para sonhar, mas sem penas para voar, encontrava-se miúdo em uma dimensão de infinitos.

Sem ver nem saber, mal saído da casca quebrada do seu ovo-morada, o passarinho escorregou pelos galhos perdendo-se em uma visão turva de luz e sombras. E, no seu descuido adiantado, descia, caía e rolava rumo ao desconhecido.

Repousou, então, em linhas emaranhadas, de cores e comprimentos dispersos. Foi a primeira vez que abriu os olhos. Ainda não via completamente, seu mundo parecia refletido por espelhos em suspensão. Entranhado em fios, o seu pouso pendurado denunciava uma vertigem de ecos atravessados. Dentro e fora se mesclavam em um ritmo de esperas duvidosas. Um calor gostoso de aconchego saía dali e, assim, decidiu fazer daqueles fios a sua morada. Quentinho e com um cheiro de espera prolongada, o passarinho firmou seus pés em nós e, com seu bico, foi fiando fios coloridos. Tempo, tempo, tempo.

A menina nem tanto reagiu às primeiras puxadas de cabelo, mas incomodou-se com a estranheza de uma coceira que dava no pescoço e subia para o couro cabeludo. E, ao atravessar a ponte de volta para a cidade, buscou as respostas na sua imagem refletida em um lago. Foi então que viu uma asa saindo dos seus cabelos. Soube assim mesmo, sem ver.

Um enigma, um futuro sem gravidade, lugar dos piados cantados. Encanto da contradição que só o silêncios e os sentidos sabem de ondem vem e para onde vão.

No dia seguinte, escutou um canto tímido. Não sabia se era dentro ou fora da sua cabeça, estava ainda no estado de semi-sonoacalantado. Foi então que se lembrou do dia anterior: entre esperas, um filhote de passarinho fez um ninho no seu cabelo.

20 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Fernanda Fazzio
fazziofernanda@gmail.com

+55 11 4191 1258

Atendimento presencial em
São Paulo e Alphaville

 


 

Envie uma mensagem

Nome *

Email *

Mensagem

©2019 Fernanda Fazzio - São Paulo, Brasil. Todos os direitos reservados. Consulte antes para reprodução total ou parcial do conteúdo do site | Termos de uso | Política de Privacidade